quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

SILÊNCIOS QUE GRITAM (IX) – O EXÍLIO NA PRÓPRIA PÁTRIA

 
“Se o governo não consegue baixar o custo de vida então tem simplesmente de sair de cena. Se a polícia e as tropas querem disparar sobre nós, está bem, porque ao fim e ao cabo, se não formos mortos pelas balas, vamos morrer de fome.” (um manifestante no Haiti)

Se num exercício de masoquismo ou de suicídio colectivo, a sociedade portuguesa optar por entregar o ouro ao bandido, resta-nos o exílio: na própria pátria ou além-fronteiras.
Ante o autoritarismo duma clique empenhada em demolir, uma a uma, as expectativas geradas por Abril, é chegada a hora de lutar pela defesa dos direitos e das liberdades dos cidadãos.
Não apenas as camadas mais fragilizadas da população (reformados, trabalhadores precários e descartáveis, camponeses, pescadores e operários) têm sido despojadas de direitos adquiridos ao longo de uma vida de trabalho. Também os funcionários públicos, os professores, os juízes e os militares. Os pequenos e os médios empresários também não escapam a este tsunami avassalador, produzido por um grupo de figuras sinistras ( e mediaticamente construídas) que se instalou no Poder.
É preciso, é imperioso, é urgente (como diz o poeta) avisar toda a gente que um fogo destruidor, de matriz neo-liberal e fascizante,ameaça um país que apresenta das maiores desigualdades sociais, da Europa. Aqui, o fosso, entre ricos e pobres, não pára de crescer!
Como escreve um nome grande do jornalismo português, Baptista Bastos, “Portugal tem sido governado por fieiras de incapazes e, pessoalmente, só desejava que eles respondessem, em tribunal, pelas consequências dos seus actos”.
Sim eles são responsáveis pela destruição da esperança que habitava em muitos cidadãos, eles destruíram, em muitos trabalhadores, o que foi edificado com muito suor.Eles converteram o país num Feudo e assumiram , com toda a naturalidade, o papel de senhores feudais.
Como é possível, em pleno século XXI, um bando de incompetentes e arrogantes permitir-se por de joelhos uma Nação?
Largas camadas sociais manifestam, no quotidiano, o seu descontentamento! O que falta, o que é preciso, para pôr esta gente na ordem?
Tenho uma enorme dificuldade em perceber o que se está a passar. Decisões unilaterais, arbitrárias, incompetentes e penalizadoras dos cidadãos, ocorrem todos os dias. Perdeu-se a capacidade de indignação e de reacção a desmandos destes? Desde quando, um punhado de indivíduos, seja quem for, se pode permitir agir contra um Povo que, distraidamente, lhes concedeu Poder para governar na estrita observância da legalidade democrática?
Sem pudor, desrespeita-se a memória dos combatentes da liberdade que durante décadas desafiaram as forças repressivas do fascismo, sofreram na carne a violência da ditadura salazarista, foram torturados e assassinados! Sem eles, não teria havido, em 1974, o 25 de Abril. Os capitães de Abril merecem-nos todo o respeito mas é hora de abandonarmos análises simplistas e hipócritas.
A geração que hoje está no Poder, recebeu de bandeja a liberdade e o renascer da esperança de um Povo ajoelhado, durante quatro décadas. Os piores desta nova geração, instalaram-se, usurparam e descaracterizaram o Poder que outros mais coerentes, honestos e capazes, lhes confiaram
Recordo aqui, e agora, um comentário de um manifestante no Haiti, quando da crise alimentar:
“Se o governo não consegue baixar o custo de vida então tem simplesmente de sair de cena. Se a polícia e as tropas querem disparar sobre nós, está bem, porque ao fim e ao cabo, se não formos mortos pelas balas, vamos morrer de fome.”

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