sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

SILÊNCIOS QUE GRITAM(VIII) – ACULTURAÇÃO


As ruelas da sobrevivência, deverão dar lugar a amplos espaços de solidariedade que assegurem a própria sobrevivência do homem

O exílio, cultural, identitário e físico, desenvolve-se em processos separadores: emoções, silêncios e máscaras, para além da violência que jorra do interior de um novo contexto sociocultural.
Os danos, pessoais e familiares, surgem como uma inevitabilidade e são visíveis, a olho nu, nas sociedades de acolhimento, independentemente das designadas estratégias de integração.
Transporta um estilo de vida, atitudes, conceitos e hábitos que são diferentes dos encontrados no país de acolhimento. Esta multidimensionalidade poderá gerar uma maior adaptação sociocultural sem prejuízo da preservação da identidade originária.
As circunstâncias históricas e os respectivos contextos socioculturais aceleram ou retardam o esforço de adaptação a um novo espaço geográfico. Um mosaico de diferentes culturas vai-se amalgamando e projectando na busca de uma nova identidade psicossocial.
Deste modo, a aculturação arrasta as tradições e a identidade cultural para além dos aspectos psicológicos inerentes. A integração no novo país não é um dado adquirido. Factores económicos e materiais condicionam e viciam a atmosfera sócio-cultural do migrante.
A análise destas condicionantes pode servir de fio condutor para compreender o complexo processo de construção cultural destes “trabalhadores sem papeis”.
Em tese, as fronteiras culturais poderão ser o reduto de práticas xenófobas, viveiro duma estagnação cultural irreconhecível por cidadãos sem fronteiras e pelo próprio direito internacional.
As ruelas da sobrevivência, deverão dar lugar a amplos espaços de solidariedade que assegurem a própria sobrevivência do homem. Urge derrubar os muros das ideologias excludentes que aprofundam o abismo entre as condições de vida dos países ricos e dos países pobres. Na ausência de práticas de tolerância e de justiça sociocultural, corre-se o risco de a paz fossilizar enquanto miragem num mundo à mercê dos donos da guerra.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

COMUNICAÇÃO SOCIAL DISCRIMINA IMIGRANTES

Um estudo divulgado nesta terça-feira conclui que a Comunicação Social portuguesa continua a fazer um tratamento discriminatório dos imigrantes e das minorias quando noticia acontecimentos que envolvem estas populações.
Realizado em parceria pela Entidade Reguladora da Comunicação Social (
ERC), pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) e pela Universidade de Coimbra, o estudo intitulado "Emigração, diversidade étnica, linguística, religiosa e cultural na imprensa e na televisão em 2008", incidiu sobre a imprensa diária e semanal, e sobre os três serviços de programas generalistas de televisão de sinal aberto, e refere-se a 2008.
No estudo afirma-se que “em determinados acontecimentos que envolvem imigrantes e as designadas minorias, as peças jornalistas tem como temática o "crime" e "observa-se que tanto os jornalistas, como os meios de comunicação social manifestam comportamentos que tendem a infringir alguns dispositivos presentes na Constituição Portuguesa, no Estatuto do Jornalista, na Lei de Imprensa e da lei da televisão”.
O trabalho destaca que o recurso a discursos opinativos e a juízos de valor é recorrente, infracções estas que podem estar enquadradas nos artigos 12º e 13º da Constituição Portuguesa, nomeadamente através "de intervenções discriminatórias dos jornalistas/pivôs ou repórteres, que enfatizam nas peças de imprensa e de televisão a ascendência, a raça e o território de origem como determinantes para a compreensão dos acontecimento.
As condições de trabalho dos imigrantes e as dificuldades que enfrentam no processo de inserção são temas poucas vezes abordados e em contrapartida o tema "crime" aparece como o mais associado aos imigrantes e às minorias.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

UM ESPECTRO DE RACISMO ASSUSTA O PLANETA

Países europeus, como Alemanha, Inglaterra, Espanha e França, têm promulgado legislação xenófoba visando criminalizar a imigração, tornando-a ilegal. Esta postura não visa apenas as populações africanas, alvo do racismo. Ela é muito mais ampla e atinge muçulmanos, ciganos, latino-americanos e habitantes de muitos países da Europa Oriental.
A Europa talvez nunca tenha sido realmente tolerante, mas, quando os empregos considerados inferiores não eram aceites pela maioria dos europeus, um grande número de imigrantes foi recebido para preencher esses cargos indesejados.
Por conta de um possível medo da concorrência, uma parcela da população europeia voltou a eleger o estrangeiro como bode expiatório. Assim, criou-se um perigoso espaço para partidos políticos de extrema direita, de cunho nazi-fascista.
Escrito por Grupo de São Paulo,
aqui

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

FRANÇA: IMIGRANTES SEM PAPEIS FAZEM GREVE E OCUPAÇÕES



Em França, um movimento de luta dos imigrantes sem papéis, com greves e ocupações, que teve início em 12 de Outubro, está a crescer e a ampliar-se, exigindo a regularização de todas e todos. O movimento, apoiado por sindicatos, associações e partidos de esquerda, envolve já mais de 5.000 imigrantes.
No dia 1 de Outubro, organizações e centrais sindicais (entre as quais CGT, CFDT e Solidaires) e outras associações enviaram uma carta ao primeiro ministro francês solicitando uma circular ministerial, que permita a regularização dos trabalhadores e das trabalhadoras imigrantes que não têm papéis.
A 12 de Outubro estes trabalhadores e trabalhadoras iniciaram um movimento de greves e ocupações, no seu local de trabalho ou no sector de actividade, que não tem parado de crescer. A mobilização tem sido mais forte nos trabalhadores dos sectores da construção civil e obras públicas, limpeza, segurança e restauração.
Um site de solidariedade (
Solidarité avec les travailleurs-euses « sans-papiers » en grève) divulga notícias e tem uma petição, subscrita por centrais sindicais, associações e partidos de esquerda e que está a recolher assinaturas.
Nesta Terça feira 10 de Novembro, o presidente da Câmara de Paris, Bertrand Delanoë, escreveu ao primeiro ministro pedindo-lhe que "flexibilize as condições de regularização dos trabalhadores sem papéis", pois constata que o movimento "toma diariamente maior amplitude" e está preocupado que o movimento, por falta de negociação, venha a "perturbar a actividade económica da capital".
O movimento reivindica que a circular ministerial permita a regularização da(o)s trabalhadora(e)s, independentemente do seu "estatuto, situação, nacionalidade e sector de actividade". Pretendem ainda que a circular contenha "definição de critérios melhorados, simplificados e aplicados ao conjunto do território nacional", igualdade de tratamento e procedimento estandardizado.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O DIREITO E TER DIREITOS

Um milhar pessoas participou, dia 17, numa manifestação em Madrid pedindo a revogação da nova Lei de Imigração, considerada um grave retrocesso para os direitos dos imigrantes. Os manifestantes, convocados por quase 70 associações de apoio aos imigrantes, percorreram as ruas da capital espanhola exibindo, entre outras, uma faixa com os dizeres “Paremos a reforma da Lei de Imigração. Temos direito a ter direitos”. O protesto decorreu ainda em mais nove cidades espanholas. A reforma da lei, segundo os organizadores, “consolida uma visão eminentemente policial da gestão das migrações, ligando perigosamente a crise à imigração”. Em Espanha, dos quase 46 milhões de habitantes 12% são imigrantes. Retirado daqui

terça-feira, 6 de outubro de 2009

ONU: RELATÓRIO DESMONTA MITOS SOBRE IMIGRAÇÃO


Algumas ideias feitas sobre a imigração no mundo são desmontadas pelo Relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas divulgado esta segunda-feira, que mostra que apenas um terço das migrações internacionais se dá de um país em desenvolvimento para um país desenvolvido: menos de 70 milhões de um total de 200 milhões de migrantes. A maioria desloca-se de um país em desenvolvimento para outro, ou de um país desenvolvido para outro. Além disso, o relatório mostra que a maioria das migrações são internas aos próprios países e que menos de 1% dos africanos migraram para a Europa.
O relatório traz assim uma nova luz aos debates sobre a imigração na Europa, em que aqueles que defendem o endurecimento das políticas de controlo de fronteiras e o levantamento de verdadeiros muros em torno de uma Europa-fortaleza sempre argumentam que o continente europeu não pode receber migrações maciças da África. Mas o relatório da ONU mostra que os povos dos países mais pobres são os que menos mobilidade têm - e é por isso que menos de um por cento dos africanos se mudaram para a Europa.
De facto, diz o relatório, "a História e evidências contemporâneas sugerem que o desenvolvimento e a migração caminham de mãos dadas: o índice médio de emigração de um país de baixo desenvolvimento humano é inferior a 4%, comparado com mais de 8% em países de altos níveis de desenvolvimento humano." Isto é, há mais emigrantes de países ricos, em percentagem, que dos pobres.
O relatório também mostra que a maior parte das pessoas desloca-se dentro do seu próprio país e não além-fronteiras. Estima-se que aproximadamente haja 740 milhões de migrantes internos e 200 milhões de migrantes internacionais - dos quais menos de 70 milhões saíram de um país pobre para um rico.
A maioria dos migrantes obtém melhoria nas suas vidas, na forma de melhores rendimentos, melhor acesso à saúde e educação, e melhores perspectivas de vida para os filhos. Por isso, uma vez ultrapassadas as barreiras iniciais e estabelecidos no seu destino, os imigrantes aderem mais facilmente que os locais a sindicatos ou grupos religiosos e outros, e a maioria sente-se feliz com a sua situação. Isto é, desde que lhes seja dada a possibilidade de se estabelecerem, os imigrantes integram-se com facilidade nos países de acolhimento.
Os que migram devido a insegurança ou guerra são cerca de 14 milhões e representam 7% dos migrantes no mundo. A maioria mantém-se próxima ao país que tiveram de abandonar, na esperança de retornar.Confira
aqui

sábado, 18 de julho de 2009

PEDIDOS DE REGULARIZAÇÃO DE IMIGRANTES, DA ORDEM DOS 60%, FORAM RECUSADOS PELO SEF


Mais de 70 mil processos para regularização de imigrantes, ao abrigo do art. 88, entraram nos serviços do SEF desde o final de 2007. No entanto, apenas 42% concluíram o processo de legalização. Dos processos entrados este ano, quase três mil (63%) foram recusados, com notificações imediatas para o abandono do país.
De acordo com dados divulgados na imprensa, 63% dos pedidos recebidos este ano pelo SEF foram recusados, tendo havido 2.901 imigrantes a receber notificações para abandonar o país. Desde finais de 2007, foram 71.362 os pedidos de regularização que entraram no SEF ao abrigo do artigo 88, mas apenas 42% conseguiram concluir o processo de legalização.Em declarações à imprensa, dirigentes de associações de defesa dos imigrantes revelaram o seu descontentamento com esta situação. Paulo Mendes, coordenador da Plataforma de Associações de Imigrantes, afirma que "as notificações são o pão nosso de cada dia" e acusa o SEF de ser "um dos motores da ilegalidade, em vez de encaminhar as pessoas para a legalidade".Por seu lado, Gustavo Behr, presidente da Casa do Brasil, afirma que quando se faz um pedido de regularização através do artigo 88 é porque se "preenchem os requisitos e, como tal, deveriam ser todos regularizados".
Retirado do Net-esquerda

sexta-feira, 17 de julho de 2009

SILÊNCIOS QUE GRITAM (VII) A MIGRAÇÃO E O JORNALISMO ACRÍTICO


Os média deveriam ser o alicerce da sociedade democrática que desafia a autoridade e oferece ao povo a oportunidade igual de aprender e participar. (Noam Chomsky)
No decurso da guerra fria, um jornalismo acrítico e de subserviência em relação a regimes liberais, eminentemente anti-comunistas, defensores e servidores do status quo e do grande capital, sempre se disponibilizaram para noticiar a problemática dos refugiados das ditaduras comunistas! Faziam-no duma forma parcial, arbitrária e subserviente
Hoje, apesar da “liberdade” finalmente conquistada, das regiões orientais da Alemanha, da Polónia, Roménia, Albânia, etc., o fluxo migratório não cessa de aumentar. Sobre esta realidade, os chamados jornais de referência remetem-se para um silêncio sepulcral! Com os muros a aprisionar palestinos na sua própria Pátria ou com a muralha americana a separar o México, a evocação do Muro de Berlim já não pode, obviamente, surtir o efeito de outrora.
Este império da mentira e da desinformação, continua na frente de combate pela manipulação da opinião pública à escala global e é igualmente responsável pela onda de xenofobia que ameaça os migrantes em geral e, em particular, os de origem árabe ou africana

NA ILHA DE MOÇAMBIQUE


HISTÓRIAS DA EMIGRAÇÃO

A problemática migração, e o que lhe está associado, é o objecto deste blogue. Tenho alguns textos por concluir e/ou por publicar.
Entretanto, não resisti, a este trabalho de José Saramago, retirado daqui:
Histórias da emigração
Que atire a primeira pedra quem nunca teve nódoas de emigração a manchar-lhe a árvore genealógica… Tal como na fábula do lobo mau que acusava o inocente cordeirinho de lhe turvar a água do regato onde ambos bebiam, se tu não emigraste, emigrou o teu pai, e se o teu pai não precisou de mudar de sítio foi porque o teu avô, antes dele, não teve outro remédio que ir, de vida às costas, à procura do pão que a sua terra lhe negava. Muitos portugueses morreram afogados no rio Bidassoa quando, noite escura, tentavam alcançar a nado a margem de lá, onde se dizia que o paraíso de França começava. Centenas de milhares de portugueses tiveram de submeter-se, na chamada culta e civilizada Europa de além-Pirinéus, a condições de trabalho infames e a salários indignos. Os que conseguiram suportar as violências de sempre e as novas privações, os sobreviventes, desorientados no meio de sociedades que os desprezavam e humilhavam, perdidos em línguas que não podiam entender, foram a pouco e pouco construindo, com renúncias e sacrifícios quase heróicos, moeda a moeda, centavo a centavo, o futuro dos seus descendentes. Alguns desses homens, algumas dessas mulheres, não perderam nem querem perder a memória do tempo em que tiveram de padecer todos os vexames do trabalho mal pago e todas as amarguras do isolamento social. Graças lhes sejam dadas por terem sido capazes de preservar o respeito que deviam ao seu passado. Outros muitos, a maioria, cortaram as pontes que os ligavam àquelas horas sombrias, envergonham-se de terem sido ignorantes, pobres, às vezes miseráveis, comportam-se, enfim, como se uma vida decente, para eles, só tivesse começado verdadeiramente no dia felicíssimo em que puderam comprar o seu primeiro automóvel. Esses são os que estarão sempre prontos a tratar com idêntica crueldade e idêntico desprezo os emigrantes que atravessam esse outro Bidassoa, mais largo e mais fundo, que é o Mediterrâneo, onde os afogados abundam e servem de pasto aos peixes, se a maré e o vento não preferiram empurrá-los para a praia, enquanto a guarda civil não aparece para levantar os cadáveres. Os sobreviventes dos novos naufrágios, os que puseram pé em terra e não foram expulsos, terão à sua espera o eterno calvário da exploração, da intolerância, do racismo, do ódio à pele, da suspeita, do rebaixamento moral. Aquele que antes havia sido explorado e perdeu a memória de o ter sido, explorará. Aquele que foi desprezado e finge tê-lo esquecido, refinará o seu próprio desprezar. Aquele a quem ontem rebaixaram, rebaixará hoje com mais rancor. E ei-los, todos juntos, a atirar pedras a quem chega à margem de cá do Bidassoa, como se nunca tivessem eles emigrado, ou os pais, ou os avós, como se nunca tivessem sofrido de fome e de desespero, de angústia e de medo. Em verdade, em verdade vos digo, há certas maneiras de ser feliz que são simplesmente odiosas. (José Saramago)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

PROTESTO MIGRANTE


Em estaleiros de vidas adiadas
homens e mulheres
enclausurados em guetos
de sociedades sem ética
acossados para a marginalidade
reciclados nas fronteiras
da indiferença
a pretexto de serem estrangeiros
estigmatizados pela origem
jazem na miséria e na perseguição
docilizam a revolta
reproduzem a exclusão

retirado de PoesiadeAgry

quinta-feira, 18 de junho de 2009

SILÊNCIOS QUE GRITAM (VI) - DIREITOS DOS IMIGRANTES



O mundo que eu gostaria de contemplar seria um mundo liberto da brutalidade dos grupos hostis, e capaz de compreender que a felicidade de todos resultará mais da cooperação do que dos conflitos (Bertrand Russell)

Num mundo em decomposição, onde os Estados se demitem,a solidariedade light e a indiferença são a imagem de marca, a amplificação dos sentimentos xenófobos não pode cessar de crescer.
Assobiar para o lado como se os outros fossem sombras inúteis não passa de uma mera tentativa jesuítica de abordar a problemática da migração
A realidade, quando confrontada com os discursos caramelizados produzidos pela ideologia excludente, deixa a nu o farisaísmo dominante.
Sociedades preconceituosas até às virilhas,são um embuste que em nada favorecem a inclusão dos imigrantes, pelo contrário: contribuem para a crescente desumanização das relações de trabalho e para aprofundar as desigualdades sociais.
Aos imigrantes, ou trabalhadores invisíveis, não lhe são reconhecidos direitos apesar de serem uma realidade que não se confina à estratégia delirante das democracias entorpecidas
Os traços fortes da inépcia, em comprender o outro, revelam-se em práticas sistemáticas em estigmatizar o migrante, com qualificativos ácidos e rasteiros.
Decretar a invisibilidade da migração equivale à perpetuação discriminadora do outro e à cumplicidade com os violadores de direitos humanos.
É inegociável o respeito pela dignidade humana e o reconhecimento da igualdade de direitos entre todos os cidadãos. É preciso, é urgente, é inadiável derrubar os muros que bloqueiam a construção de sociedades mais justas, mais humanas e mais inclusivas.
É preciso pôr termo aos efeitos que reproduzem a guetização e exclusão e todo o cortejo de misérias que consigo arrasta e reunir um conjunto de forças e cidadãos que repudiem o projecto de sociedade que está a ser imposto à Humanidade.

terça-feira, 2 de junho de 2009

SILÊNCIOS QUE GRITAM (V) - LEIS DE MIGRAÇÃO

Seja na costa italiana ou nas Ilhas Canárias, centenas de pessoas chegam diariamente ao território europeu.
Enquanto as autoridades discutem se são 'refugiados' ou 'imigrantes', cada um conta apenas com a própria sorte (Dw World. De)
O fenómeno migratório induz a um dever urgente de recuperar a utopia da solidariedade, entre os povos,a justiça social e os direitos humanos.
O edifício jurídico que acolhe a defesa dos imigrantes surge como resultado de lutas transversais a todos as geografias e perfumado pela aliança de muitas centenas de milhares de trabalhadores
É preciso, é urgente, conquistar soluções globais e inclusivas, em oposição a atitudes rançosas simuladas com uma roupagem obscena.As forças mais imobilistas, apostadas numa direcção claramente regressiva e securitária, convertem os imigrantes em bodes expiatórios , transferindo para eles o ónus de politicas desastrosas e responsabilizando-os por todos os males sociais nomeadamente o desemprego e a criminalidade.
Esta diabolização dos imigrantes é o pretexto para as escolhas duma arquitectura politica desprovida de humanismo e altamente discriminatória que culminou com a abjecta directiva da vergonha aprovada pela EU. a qual alarga o prazo de detenção dos imigrantes sem-papéis e prevê a massificação das expulsões.
Sobreviver, atravessando as fronteiras da intolerância dum continente que não aprendeu a amar. Resistir, percorrendo caminhos sinuosos , traiçoeiros e armadilhados de ambiguidades semeadas por entidades sem ética,são alguns dos escolhos que se cruzam no quotidiano dum imigrante.
O velho continente precisa de imigrantes como pão para a boca: compensar o envelhecimento da sua população e de preencher os empregos rejeitados por parte da população local, nomeadamente os trabalhos de maior desgaste físico e em sectores considerados menos nobres. Por outro lado, a crença de que os migrantes são economicamente necessários mas socialmente indesejáveis repousa no mesmo tipo de preconceito que criminaliza e detem trabalhadores apenas porque são imigrantes
A história tem uma dívida de mais de 500 anos com os povos migrantes. Nenhum ser humano é minoría, nenhum ser humano é indocumentado e nenhum ser humano é ilegal.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

ZAMBÉZIA

FOTO DE JOAKIM

SILÊNCIOS QUE GRITAM(IV) - O DESTINO


Em certos momentos, os homens são donos dos seus próprios destinos(William Shakespeare)

Partir para outras miragens, perseguir outra estabilidade e imaginar um futuro diferente é uma atitude decalcada na história recente de outros povos.
Paradoxalmente,sente-se despojado da euforia da liberdade colectiva conquistada e das fronteiras identitárias implícitas.
Para trás, ficou a nostalgia, as paisagens e os rostos gravados no quotidiano da sua existência, e a frágil memória de uma pátria recém-liberta e um terrritório afectivo e cultural difuso.
O conflito que tantas vidas ceifou, eterniza-se no sofrimento de centenas de milhares de compatriotas num cenário dantesco que no decurso de uma década se tentou ocultar
Esta guerra fratricida foi o pretexto para mais uma hemorragia no corpo de um país enfermo e acossado. Lá longe, os holofotes da paz e da abundância, seduziam os instintos para territórios culturais pouco conhecidos!
Este simulacro de paz, rodeado de muros de exclusão, ocultam uma hostilidade permanente e uma coexistência mal conseguida: velhos preconceitos transportados para uma nova geografia!
O novo palco societário exigirá do imigrante um novo reposicionamento e a clara percepção das relações de poder e de identidade amalgamadas no território de destino
Uma abertura ingénua ao outro pode traduzir a desagregação do eu, provocando uma crise identitária. A recuperação dum certo conceito de assimilado, enquanto aliado da ideologia colonial, pode resultar num ser cultural híbrido.
A resistência cultural, ainda que ancorada na construção duma nova identidade sem ruptura, é a linha divisória, a fronteira que sobrevive ao domínio do outro.
Urge derrubrar as muralhas da intolerância que se alojou nas entranhas, duma certa memória reinventada, e acumular energias para se resguardar dos problemas que aí vêm e reivindicar uma coexistência mais ou menos pacífica.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

SILÊNCIOS QUE GRITAM (III) - RUMO AO DESCONHECIDO


Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. (Milan Kundera)

Rumar ao desconhecido, abandonar lugares e afectos profundos, arquivar o imaginário na penumbra das boas recordações, é um verdadeiro salto no escuro, sem rede e sem retorno.
Acusar, quem o faz, de bater em debandada, não é seguramente o melhor caminho.
É ficar nos bicos dos pés à espreita do pretexto de cavalgar à custa de dramas de terceiros. É o clássico arremesso de pedras, é o diabolizar ausências, obedecendo à lógica incapacitadora de dissecar as circunstâncias que rodearam e determinaram a partida. Cada homem é uma história e esta não pode ser, manhosamente avaliada. A colagem de rótulos processa-se anarquicamente. É o arrivismo no posto de comando. Perde-se de vista a construção de sonhos e expectativas. Privilegia-se o assalto à visibilidade e aos centros decisores. As florestas da hipocrisia atiçam a intolerância e a compreensão do outro.
Impreparado para digerir a nova realidade, cercado pelo fundamentalismos, relegado para o submundo da escassez e da fome, acossado no interior do seu próprio quintal, a decisão de partir constitui a última oportunidade para se libertar da espiral de miséria e reencontrar a esperança, ao virar da esquina.
Confrontado com o enigma, inicia a fuga, para a frente, na expectativa de fazer uma escolha entre duas espécies de desconforto, optando por uma terapia menos dolorosa
Rasgar muros e medos, forrados de cinismo escavados na banalização da indiferença, é o próximo desafio a vencer. Atropelar a memória, driblar o preconceito e a opacidade do outro, são jogadas de laboratório a ensaiar
Homens e mulheres, enclausurados em guetos de sociedades eticamente anestesiadas, reciclados nas fronteiras da indiferença, são submetidos à tortura dum clima social instável e agreste.
Aqui, a coluna vertebral regressa, por vezes, às origens identitárias e aceita o desafio.
A impressão digital dos afectos e das cumplicidades deixa um travo de nostalgia, e recorda que o combate mal começou

quarta-feira, 13 de maio de 2009

SILÊNCIOS QUE GRITAM (II) - AS ORIGENS

As árvores têm de se resignar, precisam das suas raízes; os homens não. Não gosto da palavra “raízes” e da imagem ainda menos. As raízes enfiam-se na terra, contorcem-se na lama, crescem nas trevas; mantêm a árvore cativa desde o seu nascimento e alimentam-na graças a uma chantagem: “Se te libertas, morres!”
(Amin Maalouf)

O corte do cordão umbilical foi, em muitos casos, uma intervenção adiada e/ou assistida. Gerações de urbanizados experimentaram o desconforto da coexistência com a mudança de paradigma! Os mais domesticados, renunciavam às origens e afundavam nos seus delírios, refugiando-se em velhas crenças difundidas pelo engenho triturador de sonhos.
No terreno, esboçava-se o projecto de uma vida nova! Enclausurados em guetos de sociedades divididas, o fogo cruzado das ideologias dominantes provocava danos e adiava as decisões. Interesses irreconciliáveis disputavam cada palmo de terra.
Esta ideologia libertadora, ameaça a capitalização de privilégios. Em nome da caça às bruxas, forjam-se pretextos para prolongar as hostilidades! O velho inimigo, sorri
A amnésia histórica instala-se. A diabolização da luta emancipadora dociliza e domestica os mais vulneráveis. Rasgam-se as entranhas do sonho. O pesadelo arrasta-se e secundariza-se a dignidade.
A sobrevivência da utopia está ameaçada, dificilmente resistirá! A morte foi, entretanto, anunciada.
Homens e mulheres, crianças e velhos disputam, no quotidiano, um punhado de alimento. Cobras e humanos, pernoitam em árvores.
Num cenário de destruição, de insegurança, de armadilhas e de indignidades, a degenerescência galopa e os ódios substituem-se à solidariedade e à partilha tão peculiar das gentes da Pérola do Índico.
Nos alicerces dum projecto de contornos bem definidos, ainda que questionado por alguns (muitos?) a nova arquitectura politica terá de dispor de imaginação, capacidade e empenho para conquistar as principais vítimas deste estúpido pesadelo, com rastos de violência aviltantes.
Neste período, muitos moçambicanos, muitos quadros, abandonaram o seu País. Órfãos, coagidos à aventura, engrossaram o caudal dos trabalhadores à mercê da exploração desenfreada dos mesmos, de sempre. Alguns, nem por isso!
Uns e outros ficaram mais pobres: o país e os cidadãos.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O FUTURO


É preciso dar notícia
informar, mobilizar
que a resistência
à mudança
aprisiona a liberdade
convoca e legitima
a arbitrariedade

É preciso impedir
o regresso ao passado
o ressurgir dos medos
a violência gratuita
o sofrimento, a infâmia
o excesso de autoridade
o reino da impunidade

é preciso dar noticia
mobilizar, resistir
reproduzir a esperança
viabilizar a utopia
recuperar a dignidade
isolar e punir
os carrascos da liberdade

não podemos capitular
temos que acreditar e lutar
jamais mastigaremos silêncios
cumplicidades e medos
nada nos pode acorrentar
saberemos sorrir
lutar e avançar

é urgente extirpar
degenerescências
metástases e bloqueios
falsos profetas
plagiadores de sonhos
usurpadores
sem soçobrar

é preciso, pois
dar noticia, mobilizar
projectar e construir
o futuro sem armadilhas
nem ambiguidade
sem perder de vista
a humanidade

é preciso dar noticia
informar, divulgar
as ausências, os silêncios
o que sofremos
o pão suado
dizer não
ao regresso ao passado

IMAGEM E TEXTO RETIRADOS DE POESIA DE AGRY

quarta-feira, 6 de maio de 2009

SORRISOS DE ESPERANÇA

SILÊNCIOS QUE GRITAM (I) - SONHOS NO EXÍLIO


O exílio é um daqueles silêncios que gritam, apesar das ambiguidades, dos pensamentos ausentes, das lágrimas vestidas de raiva, e da impotência acomodada. As ausências e os silêncios preenchem o quotidiano do exilado/emigrante em territórios polvilhados de nostalgia e de recusa e ostracismo explícitos.
Politicamente refractários, perseguidos ou indiferentes, percorrem as ruas da sobrevivência, em nome duma amnésia histórica adquirida. As tragédias pessoais dilatam-se ou contraem-se como vasos dum corpo social imunodeficiente.
A reprodução e o regresso ao passado desperta-os desta letargia mal diagnosticada.
A crise identitária, de uns, é compensada pelo pragmatismo doutros.
Pedreiros, estudantes, mulheres a dias, funcionários públicos, freiras e prostitutas, políticos de todos os quadrantes, quadros superiores, músicos, desportistas representam esta multidão difusa, heterogénea e desconfortável numa temperatura social mais fria, mais distante, menos solidária, diferente!
Outro continente, outras gentes, e uma coexistência difícil. A geografia e a unidimensionalidade cultural repercute-se em todos os domínios da existência separadora, inevitavelmente!
Do local de trabalho ao bairro, passando pelos transportes públicos, os pesadelos do passado, ressurgem como num filme a preto e branco: “ Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor policia”(Mia Couto)
Milhares que vivem em situação de vulnerabilidade e incertezas, são invadidos pelo desalento, pela frustração e pelo desencanto e pelos medos que capturam a esperança! Como eram enormes as expectativas geradas!
Revisitar as origens, familiares e amigos, cheiros, sabores e tantos lugares e afectos, percorrem, e preenchem, os sonhos do exilado:
Maputo e Mafalala;Quelimane e Namacurra; Beira e Manga; caril de amendoim, e mucuane, sura , caju e aguardente; mangas e papaias; Pemba e Paquitequete , Inhambane , Chidinguele; caranguejo e camarão; Ibo e café, galinha à zambeziana, xigubo, msaho mapiko, Malangatana, Craveirinha, Mia Couto Fanny Pfumo, Paulina Chiziane,mafurra, praias, pescadores mineiros e o coração grande e generoso dos compatriotas, moçambicanos.