terça-feira, 25 de Junho de 2013

Aniversário da Independência de Moçambique

BANDEIRA MOÇAMBIQUE
Há 38 anos, foi içada, pela primeira vez a bandeira da independência nacional.Moçambique tem de (re)construir-se e reinventar-se a partir de uma determinação inabalável que se exprima pela capacidade não só de pensar o futuro no presente, mas também de organizar o presente de maneira que permita actuar sobre esse futuro, colocando os cidadãos no posto de comando.

SILÊNCIOS QUE GRITAM (XIII)– IDEOLOGIA DO CONSENSO

SILÊNCIOS QUE GRITAM

Sobreviver ao neoliberalismo, também aqui, obriga a um corte com as interferências linguísticas e uma luta quotidiana contra a reprodução dos discursos dominantes que pretendem formatar-nos de acordo com os seus interesses. Estamos assim na presença de uma luta cultural, questionando o sentido e o significado de tudo que nos rodeia. A austeridade, não é um mero palavrão: cria um exército de desempregados e famintos, de cidadãos sem direitos, produto de uma obsessão política e não de uma fatalidade económica.

É neste território da linguística de um neoliberalismo pronto a servir, que habitam a mentira, a demagogia e uma dimensão totalitária e indecorosa da política. É pois desejável ressignificar as coisas, o mundo e a sociedade, pugnando pela construção de um modo alternativo ao modelo neoliberal, numa época em que a distinção entre capitalismo e democracia parece ter sido esbatida e a liberdade reduzida a uma estratégia de mercado.

A propalada crise europeia é o exemplo paradigmático do confronto entre a realidade e o fundamentalismo neoliberal delirante. Evocar o “Pacto do crescimento” como o início de uma solução para a depressão na qual se afunda perigosamente a zona euro devido às políticas de austeridade generalizada é uma mistificação grosseira. Esta fraude, e a inevitável decepção que se seguirá, à medida que a crise se aprofunda, será o toque de finados na credibilidade do discurso europeísta. Ao menorizar os cidadãos e adormecê-los como crianças, os líderes europeus pretendem legitimar a farsa democrática.

Os ziguezagues e a reinvenção da linguagem não conseguem disfarçar o óbvio. À medida que as nuvens negras do autoritarismo neoliberal se alojam no território social, milhões de trabalhadores são tornados dispensáveis como resultado da ferocidade de políticas de austeridade. Os Bancos e as agências de risco adquirem direitos de propriedade sobre tudo e todos.

Nota: Originalmente publicado no Farsa Democrática

sábado, 22 de Junho de 2013

SILÊNCIOS QUE GRITAM (XII)– IDEOLOGIA DO CONSENSO

SILÊNCIOS QUE GRITAM

Atrás da expressão neutra da “mundialização da economia” e seu corolário já mais explícito da “vitória do mercado”, esconde-se um modo específico de funcionamento e de dominação política e social do capitalismo. O termo “mercado” é a palavra que serve hoje para designar pudicamente a propriedade privada dos meios de produção (François Chesnais)

A apologética da política económica neoliberal rege-se por uma teia de conotações e associações de palavras como flexibilidade, maleabilidade, desregulamentação, reajustamentos, reformas estruturais, que tendem a fazer crer que a mensagem neoliberal é, usando as palavras de Pierre Bourdieu, “uma mensagem universalista de libertação”.

Este recurso a uma linguística fraudulenta e mistificadora permite institucionalizar um léxico que incorpore os pressupostos que o Poder pretende perpetuar. A descodificação de palavras impregnadas de ideologia permite, segundo François Chesnais, apreender as linhas básicas do processo de internacionalização do capitalismo bem como o festival de termos “vagos e ambíguos” que se tornaram dominantes no discurso político e económico recente: austeridade, meritocracia, zona de conforto, inevitabilidades, emigração, empreendedorismo, partilha de objectivos, construção do futuro, precariedade, piegas e preguiçosos, subsidiodependentes, deslocalização, sacrifícios repartidos, histeria.

Para Eduardo Galeano, o capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado; O imperialismo chama-se globalização e, esta, ditadura universal do dinheiro; As vítimas do imperialismo chamam-se países em via de desenvolvimento, que é como chamar meninos aos anões; O oportunismo chama-se pragmatismo; A traição chama-se realismo; Os pobres chamam-se carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos. O direito do patrão de despedir sem indemnização nem explicação chama-se flexibilização laboral. O saque dos fundos públicos pelos políticos corruptos atende ao nome de enriquecimento ilícito.

Não se diz “patronato” mas empreendedores; não se fala mais de demissões, mas de “cortar gorduras”. Para anunciar que o Estado vai demitir milhares de funcionários, evoca-se o cliché “mais Estado, menos Estado”.

terça-feira, 18 de Junho de 2013

SILÊNCIOS QUE GRITAM (XI) –MIGRANTES SOMOS TODOS

 

SILÊNCIOS QUE GRITAM

O trabalho manual por oposição à chamada actividade simbólica – o trabalho, e não o sexo, está a tornar-se cada vez mais o lugar de indecência obscena que deve ser ocultada dos olhares dos outros. Lá, onde o processo produtivo se desenvolve debaixo da terra, em cavernas escuras, culmina hoje nos milhões de trabalhadores anónimos que transpiram nas fábricas do Terceiro Mundo, desde os gulags chineses às linhas de montagens indonésias. Face à sua invisibilidade, o Ocidente pode dizer que a chamada classe trabalhadora está a desaparecer. A verdade é que está apenas a desaparecer daqui. (Slavoj Zizek)

Acossados por governos politicamente indigentes e ao serviço do neo-liberalismo, os trabalhadores europeus (portugueses, espanhois,gregos) engrossam o exército mundial de reserva e manifestam, no quotidiano das suas existências, a repulsa por uma política de terra queimada dirigida a aprofundar o abismo entre as condições de vida dos países ricos e pobres, e estimular o conformismo, o espírito de rebanho, e a decisão de migrar - última oportunidade para se libertar da espiral de miséria e reencontrar a esperança de viver com dignidade.

As políticas de austeridade aplicadas simultaneamente na maior parte dos países da União Europeia contribuem para a espiral recessiva mundial.

A Primavera árabe foi o rastilho que nos devolveu a confiança em nós e na capacidade colectiva para mudar a actual ordem de coisas e romper com o cepticismo, a resignação e a apatia dominantes

Este fenómeno, transversal a todos os continentes, despertou para a luta milhões de trabalhadores até então mergulhados numa passividade ultraconservadora. Se o capitalismo é global , consequentemente, as resistências ao mesmo tem que ser globais, internacionalistas e solidárias.

O futuro dos trabalhadores e dos jovens depende, na opinião de François Chesnais, em grande medida, senão inteiramente, da capacidade para abrir espaços e criar “tempos de respiração” políticos próprios, a partir de dinâmicas que hoje só eles podem mobilizar. Estamos numa situação mundial na qual o decisivo passou a ser a capacidade destes movimentos – nascidos sem aviso – se organizarem de tal modo que conservem uma dinâmica de “autoalimentação”, inclusive em situações nas quais não existam, no curto prazo, desenlaces políticos claros ou definidos.

O nosso futuro, depende da nossa acção enquanto cidadãos atentos. Todas as mudanças transformadoras da sociedade, sempre foram produto de lutas assumidas, muitas vezes, por pequenos grupos sem expressão eleitoral.

Sem a iniciativa dessas minorias, enquanto agentes mobilizadores da sociedade, não há mudança possível. Estas lutas, em nome das legitimas preocupações dos cidadãos, acabam por arrastar as “maiorias silenciosas”, (no início), até serem consagradas pelo voto universal, que sempre vem depois – nunca antes – da vitória, como afirma Samir Amin.

Os direitos humanos pressupõem precisamente que somos alguém independentemente do nosso lugar em oposição à metáfora organicista do fascismo onde a chave para manter a ordem é que cada pessoa permaneça no seu lugar, sendo que as coisas correm mal quando as pessoas querem participar directamente na dimensão universal.

Hoje em dia ninguém fala da classe trabalhadora, mas existe, apesar de tudo, outro termo – trabalhadores imigrantes, imigrantes que funciona como uma espécie de deslocamento metafórico. (Slavoj Zizek)

 

terça-feira, 2 de Agosto de 2011

SILÊNCIOS QUE GRITAM (X) – A LUTA IDEOLÓGICA PROLONGADA


"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas (Guerra Junqueiro, "Pátria",1896.)

No país do medo, mergulhado até às virilhas na placidez pequeno-burguesa, no saque, no facilitismo, no individualismo exacerbado, na corrupção endémica, no seguidismo neoliberal, braço executivo da ideologia do capitalismo financeiro e económico, é urgente, é necessário, uma cultura de solidariedade e de tolerância.
A degradação galopante das condições de existência, prova provada da crise estrutural do sistema, é justificada por erros individuais e colectivos no domínio da economia familiar! É urgente desconstruir a couraça ideológica que reveste o corpo social anémico, impotente, preconceituoso, intolerante e subserviente. É uma cruzada a favor da paz, da solidariedade, do desenvolvimento, da justiça social e da liberdade.
A repressão e o arregimentar cultural permite formatar cidadãos obedientes e cúmplices com o status quo. As desigualdades mais gritantes estão estruturalmente entrincheiradas e simuladas no universo da demagogia.
Por outro lado, a reprodução das condições de dominação exige a intervenção de factores ideológicos que garantam a manutenção da ordem estabelecida: as vítimas e a cumplicidade com os seus carrascos.
Libertar do marasmo e dos medos um país colonizado por uns médias ao serviço de grandes grupos económicos e blindado por preconceitos adquiridos desde o berço, é uma tarefa hercúlea que exige uma mobilização geral de todos os cidadãos lúcidos.
Que fazer?

quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

SILÊNCIOS QUE GRITAM (IX) – O EXÍLIO NA PRÓPRIA PÁTRIA

 
“Se o governo não consegue baixar o custo de vida então tem simplesmente de sair de cena. Se a polícia e as tropas querem disparar sobre nós, está bem, porque ao fim e ao cabo, se não formos mortos pelas balas, vamos morrer de fome.” (um manifestante no Haiti)

Se num exercício de masoquismo ou de suicídio colectivo, a sociedade portuguesa optar por entregar o ouro ao bandido, resta-nos o exílio: na própria pátria ou além-fronteiras.
Ante o autoritarismo duma clique empenhada em demolir, uma a uma, as expectativas geradas por Abril, é chegada a hora de lutar pela defesa dos direitos e das liberdades dos cidadãos.
Não apenas as camadas mais fragilizadas da população (reformados, trabalhadores precários e descartáveis, camponeses, pescadores e operários) têm sido despojadas de direitos adquiridos ao longo de uma vida de trabalho. Também os funcionários públicos, os professores, os juízes e os militares. Os pequenos e os médios empresários também não escapam a este tsunami avassalador, produzido por um grupo de figuras sinistras ( e mediaticamente construídas) que se instalou no Poder.
É preciso, é imperioso, é urgente (como diz o poeta) avisar toda a gente que um fogo destruidor, de matriz neo-liberal e fascizante,ameaça um país que apresenta das maiores desigualdades sociais, da Europa. Aqui, o fosso, entre ricos e pobres, não pára de crescer!
Como escreve um nome grande do jornalismo português, Baptista Bastos, “Portugal tem sido governado por fieiras de incapazes e, pessoalmente, só desejava que eles respondessem, em tribunal, pelas consequências dos seus actos”.
Sim eles são responsáveis pela destruição da esperança que habitava em muitos cidadãos, eles destruíram, em muitos trabalhadores, o que foi edificado com muito suor.Eles converteram o país num Feudo e assumiram , com toda a naturalidade, o papel de senhores feudais.
Como é possível, em pleno século XXI, um bando de incompetentes e arrogantes permitir-se por de joelhos uma Nação?
Largas camadas sociais manifestam, no quotidiano, o seu descontentamento! O que falta, o que é preciso, para pôr esta gente na ordem?
Tenho uma enorme dificuldade em perceber o que se está a passar. Decisões unilaterais, arbitrárias, incompetentes e penalizadoras dos cidadãos, ocorrem todos os dias. Perdeu-se a capacidade de indignação e de reacção a desmandos destes? Desde quando, um punhado de indivíduos, seja quem for, se pode permitir agir contra um Povo que, distraidamente, lhes concedeu Poder para governar na estrita observância da legalidade democrática?
Sem pudor, desrespeita-se a memória dos combatentes da liberdade que durante décadas desafiaram as forças repressivas do fascismo, sofreram na carne a violência da ditadura salazarista, foram torturados e assassinados! Sem eles, não teria havido, em 1974, o 25 de Abril. Os capitães de Abril merecem-nos todo o respeito mas é hora de abandonarmos análises simplistas e hipócritas.
A geração que hoje está no Poder, recebeu de bandeja a liberdade e o renascer da esperança de um Povo ajoelhado, durante quatro décadas. Os piores desta nova geração, instalaram-se, usurparam e descaracterizaram o Poder que outros mais coerentes, honestos e capazes, lhes confiaram
Recordo aqui, e agora, um comentário de um manifestante no Haiti, quando da crise alimentar:
“Se o governo não consegue baixar o custo de vida então tem simplesmente de sair de cena. Se a polícia e as tropas querem disparar sobre nós, está bem, porque ao fim e ao cabo, se não formos mortos pelas balas, vamos morrer de fome.”

quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

ÓRFÃOS DA GLOBALIZAÇÃO

órfãos da globalização

Os órfãos da globalização são trabalhadores buscando empregos que não encontram nos seus países ou salários um pouco melhores do que as miseráveis remunerações que recebem nos seus países de origem. Africanos saindo de seus países, abandonados pelo capitalismo, que desconhece a África. Equatorianos fugindo da dolarização do seu país. Mexicanos fugindo dos salários de fome que recebem, quando encontram empregos, nos seus países. Confira aqui

segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011

CANTAR DE EMIGRAÇÃO - ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca
órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai

Coração
que tens e sofre
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará
(Letra José Niza)

quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

OCIDENTE EVITA TRATADO SOBRE DIREITOS DE MIGRANTES

 

Thalif Deen 
A Organização das Nações Unidas (ONU) celebrará amanhã o Dia internacional do Migrante fazendo uma exortação no sentido de ampliar a vigência de uma Convenção de 1990 que protege os direitos destas populações, em um momento em que uma onda de xenofobia se estende pela Europa e pelos Estados Unidos.
O chamado do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, foi dirigido principalmente aos países ocidentais, que abrigam mais de 215 milhões de imigrantes e se negam a ratificar o tratado que os obrigará a oferecer segurança e protecção aos trabalhadores estrangeiros. “A situação irregular de muitos migrantes não os priva de sua humanidade nem de seus direitos”, disse Ban ao se referir à data.
A Convenção Internacional sobre a Protecção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migratórios e de seus Familiares foi assinada em 1990 e entrou em vigor em julho de 2003, com a ratificação de 20 países, a maioria deles fonte de trabalhadores emigrantes, como Argélia, Egipto, Filipinas, Gana, Marrocos, México, Sri Lanka e Turquia.
Entre os países ocidentais que evitam este tratado estão vários dos maiores receptores de população estrangeira, como Alemanha, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Itália. Em um documento de 48 páginas, divulgado na sede da ONU em Nova York, a organização humanitária Human Rights Watch (HRW) pediu aos governos que em 2011 se dediquem a melhorar as medidas de protecção dos imigrantes, por exemplo, ratificando a Convenção.
Muitos governos agravam as coisas com políticas que exacerbam a discriminação ou que impedem os imigrantes até mesmo de recorrerem às autoridades em busca de ajuda, disse a pesquisadora da HRW, Nisha Varia, especializada em direitos das mulheres. As políticas migratórias e a falta de protecção legal colocam os imigrantes em maior risco de abusos, como exploração trabalhista, violência, tráfico de pessoas, maus-tratos e torturas quando são detidos, e até assassinatos, alertou Nisha. E estes países oferecem pouquíssimos recursos para reclamar justiça, acrescentou.
A crescente fobia contra os estrangeiros é evidente em boa parte da Europa ocidental (Alemanha, França, Itália e Suíça) e também nos Estados Unidos. À pergunta da IPS sobre a queda na remessa de dinheiro que os trabalhadores enviam para suas famílias, causada no último ano pela crise económica mundial, Nisha insistiu que “os governos devem proteger os direitos humanos dos migrantes sem importar se suas contribuições aumentam ou diminuem”. Além disso, combater infracções trabalhistas muito comuns, como o não pagamento de salários, tem efeitos económicos positivos, completou.
Em tempos de penúria, a população de um país pode culpar os estrangeiros de ficarem com seus empregos, mesmo em se tratando de trabalhos que ela não esteja disposta a executar, disse Nisha. Por isso, “os governos devem enfrentar os sentimentos xenófobos que levam à discriminação e à violência”, acrescentou a especialista da HRW. Segundo o Banco Mundial, as remessas de dinheiro feitas pelos trabalhadores imigrantes para os países em desenvolvimento chegaram a US$ 278 bilhões em 2007 e a US$ 325 bilhões em 2008, mas no ano passado caíram para US$ 307 bilhões.
Os países mais afectados foram Moldávia (leste europeu), Quirguistão e Tajaquistão (Ásia central), onde a queda da renda por remessas representou entre 8% e 16% do produto interno bruto, segundo o informe “Situação Económica Mundial e Perspectivas 2011”, divulgado parcialmente no dia 1º e que será apresentado integralmente na primeira semana de Janeiro.
Em várias nações centro-americanas e caribenhas, entre elas o Haiti, o impacto da redução de remessas ficou entre 1% e 2% do PIB, enquanto em países do sudeste europeu oscilou entre 2% e 3%. Contudo, o Banco Mundial adianta que os números finais de 2010, que serão computados no final do mês, estariam na casa dos US$ 325 bilhões. Espera-se que esta tendência de alta continue para chegar em 2012 com US$ 374 bilhões.
A HRW afirma que muitos países dependem da mão-de-obra estrangeira para realizar trabalhos mal pagos, perigosos ou informais. Além disso, em seu informe documenta exploração trabalhista e obstáculos para indemnizar imigrantes na agricultura, no serviço doméstico e na construção nos seguintes países: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, Indonésia, Malásia, Cazaquistão, Kuwait, Líbano e Tailândia.
“Os sistemas de apoio à imigração de muitos países concedem aos empregadores um imenso controle sobre os trabalhadores e deixam estes presos em situações abusivas ou impossibilitados de reclamar reparações na justiça”, diz o informe. Nos Estados Unidos, centenas de milhares de pessoas são detidas durante meses, inclusive anos, por violarem normas migratórias de carácter civil. Sem direito a um advogado nomeado pelo Estado, quase 60% dos imigrantes detidos comparecem aos tribunais sem defesa legal neste país.
A HRW também afirma que, para os imigrantes com deficiências mentais, a falta de um advogado determina que não podem defender seus direitos. Alguns permanecem detidos sem justificativa durante anos. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) afirmou que muito frequentemente as contribuições que os migrantes dão à sociedade são questionadas ou ignoradas, pois muitos governos adoptam condutas reducionistas, apresentando-os como uma carga para economias debilitadas ou como uma drenagem constante dos serviços sociais prestados pelos Estados.
Um estudo divulgado este ano pelo University College London revela que os recém-chegados à Grã-Bretanha, procedentes da Europa oriental, pagaram, proporcionalmente, 37% mais impostos do que os benefícios que receberam dos serviços públicos no período 2008-2009. Muitos imigrantes também contribuíram com a assistência de saúde, como pessoal médico, de enfermaria e limpeza no Serviço Nacional de Saúde do país.
Nos Estados Unidos, os cidadãos naturais se beneficiam com cerca de US$ 37 bilhões por ano, injectados na economia nacional pela actividade dos imigrantes, segundo o Conselho de Assessores Económicos da Presidência. Mais de um em cada dez trabalhadores autônomos dos Estados Unidos são imigrantes, segundo a OIM. Entretanto, apesar das provas, “poucos assuntos despertam reacções mais duras do que a migração”, disse o director-geral dessa organização, William Lacy Swing.
“Dos parlamentos até as ruas, passando pelas discussões na hora do jantar, acontecem acesos debates sobre o impacto dos imigrantes na identidade nacional, na segurança, no emprego, na saúde e nos serviços sociais, todos elementos que formam a fábrica da sociedade”, acrescentou William. Muitas discussões se baseiam em emoções e mitos, e não em realidades sociais e económicas.
“As migrações, agora e no futuro, obedecem a tendências económicas, sociais e demográficas globais que já não podem ser ignoradas”, acrescentou o director da OIM. Uma das razões de seu acentuado aumento é a queda populacional nos países industrializados, que poderá chegar a 25% em 2050, afirmou William. Isto ampliará significativamente a demanda por trabalhadores migrantes enquanto a força de trabalho dos países em desenvolvimento passará dos 2,4 bilhões, em 2005, para 3,6 bilhões em 2040. Envolverde – IPS

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domingo, 5 de Dezembro de 2010

IMIGRANTES NOS AÇORES

Aníbal Pires associa neste trabalho o conhecimento académico à paixão humana pelas Migrações. O conhecimento académico está plasmado ao longo destas páginas revelando novas facetas do fenómeno nos Açores – um contributo valioso para a nossa história de emissão e recepção de migrantes – com todos os cruzamentos científicos emergentes e difusores desse movimento fascinante. A paixão está na palavra, no olhar, na perspectiva, na emoção que hoje alguns investigadores defendem dever aproximar-se do estudo para lhe conferir novos sentidos.
Os imigrantes que a Região de nove ilhas formada acolhe, as suas motivações, os seus percursos, as avaliações e as representações que têm vindo a construir acerca da(s) sociedade(s) de acolhimento, com as suas culturas locais, foram o campo onde Aníbal Pires trabalhou, sem trair a sua matriz ideológica que, naturalmente, o levou a referenciar novas formas de discriminação e desigualdades tendentes à exclusão que hoje surgem em consequência de vários factores entre os quais a globalização que atinge também os Açores e a sua ultraperificidade – ainda factor de isolamento.
Em contrapartida, também nestas ilhas se reflectem práticas de integração já reconhecidas e convergentes com o esforço estratégico de inserção a nível nacional. Mas Aníbal Pires prefere dar voz aos actores das migrações para a análise do processo que já transformou a face dos Açores e lhe ofereceu uma nova e diversificada dinâmica cultural. Ao incorporar a auto análise dos agentes migratórios, o autor liberta vozes muitas vezes silenciosas e tímidas porque vulneráveis ou fragilizadas pelo actual decréscimo de possibilidades de mão-de-obra.
Obrigada, Aníbal Pires, por este livro e pela correcção com que as teorias servem a apresentação desta nova realidade, central no mundo, relevante nos Açores. (Alzira Serpa Silva)

Nota: o livro pode ser adquirido aqui

quinta-feira, 26 de Agosto de 2010

MORTE NA FRONTEIRA

morte na fronteira

A notícia é estarrecedora: 72 pessoas, incluindo homens e mulheres, são encontradas mortas em San Fernando, estado de Tamaulipas, México, a 160 km ao sul de Browsville, Texas, Estados Unidos.

Não é a primeira vez que os emigrantes/imigrantes, atraídos e iludidos por organizações internacionais, encontram uma morte trágica nas zonas fronteiriças entre os países pobres e os países ricos. Bastaria um olhar retrospectivo às últimas décadas para dar-se conta de quantas pessoas já foram barbaramente assassinadas ou morreram na travessia de desertos, florestas e mares que ligam o mundo desenvolvido ao mundo subdesenvolvido. Testemunhas disso são, por exemplo, Ciudad Juárez, no México; mar Mediterrâneo, entre África e Europa; mar do Caribe com golfo mexicano; e Istambul, como elo de ligação entre Ásia e Europa.

Enquanto as mercadorias, o capital, a tecnologia e os serviços têm livre trânsito , os trabalhadores encontram inúmeras barreiras, seja do ponto de vista legal, seja do ponto de vista socioeconómico e cultural.

Fronteira se torna, ao mesmo tempo, terra de ninguém e terra aberta a todas as possibilidades. Ali se mesclam e se confundem distintas línguas, bandeiras, moedas e povos de todas as raças e culturas. Ali tensões, conflitos e solidariedades convivem lado a lado. Sonhos e pesadelos cruzam e recruzam de um país para outro. Desfilam por esse terreno minado os pés ansiosos e os olhares esperançosos de imigrantes, exilados, refugiados, deportados, entre outros.

Autoridades policiais, "coyotes" e quadrilhas do tráfico disputam pessoas e dólares. Os migrantes se convertem, simultaneamente, em vítimas, problemas, e sujeitos. Vítimas, na medida em que são duplamente explorados: pelas redes criminosas encarregadas de vender falsas ilusões aos jovens do terceiro mundo que buscam um futuro mais promissor e pelos governos ou empresários que necessitam dessa mão-de-obra barata para os serviços mais sujos e pesados, perigosos e mal remunerados.

Nesse sentido, a fronteira não deixa de ser um símbolo de tais transformações económicas, políticas, sociais e culturais. Quem passa pela experiência de fronteira - vale dizer, de não lugar - tende a estar mais aberto a uma reestruturação do conceito de cidadania. Se aqueles que nascem em berço de ouro costumam ter receio de mudanças, quem experimenta a insegurança e o vaivém do caminho e da área indefinida da fronteira as anseiam e as buscam. São protagonistas da esperança. Em semelhante perspectiva, o não lugar da fronteira pode converter-se no melhor lugar para lançar as raízes de um novo lugar. A experiência da estrada e da terra de ninguém, ou seja, da transitoriedade e da provisoriedade, podem abrir uma porta privilegiada para a vontade de mudanças profundas e estruturais.

Excertos de “Morte na Fronteira”, publicado por Adital

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quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

A REVOLTA DOS INTRUSOS


Xenofobia é território de estudo do peruano Danilo Martuccelli, professor de sociologia na Universidade Lille 3, emFrança. Para esse tema dedicou não só teses académicas, mas um livro (Racisme et Xenophobie en Europe, ed. La Découverte). Na entrevista que se segue, o professor analisa o impacto da legislação da UE sobre os países membros, ao mesmo tempo que tenta explicar o endurecimento legal, de um lado, e as perspectivas de milhões que vivem em situação de vulnerabilidade e incerteza, de outro. (Só de brasileiros, são 2,7 milhões os que deixaram o País). Fala dos medos sociais que capturam o imigrante e fazem sua expiação. Ataca o economicismo que cega parlamentos e governos na busca de soluções. E chama atenção para o aumento de mulheres deixando seus países de origem: “Emigrar já não é mais um projecto masculino”.


O endurecimento das leis de imigração na UE, constrangimentos sofridos por brasileiros em aeroportos, a morte violenta de um jovem do Sul do País numa rua de Madrid. Enfim, o “vento frio da xenofobia” está mesmo soprando no continente europeu, como diz o presidente Lula?
O que se viu nos últimos anos e o que se vê neste momento, com essas leis, é que a gestão de imigração no continente europeu obedece a dois critérios. Primeiro: o imigrante ameaça a segurança interna, portanto, é assunto da polícia. Segundo: querem ver a imigração exclusivamente sob a óptica económica, como forma de se garantir ingresso de mão-de-obra, suprindo dificuldades demográficas. Essas duas visões, extremamente redutoras, não incorporam as dimensões social, cultural e humana da imigração. Ao contrário, transformam o imigrante no bode expiatório dos medos sociais.

Que medos são estes?
Vários. Mas o primeiro deles, a meu ver, tem índole demográfica. Em 1900, a Europa reunia aproximadamente 20% da população do planeta. Hoje tem 11%. Em 2050 terá 4%. Parece evidente que nos próximos anos a região terá de passar por algumas ondas migratórias.

Os incentivos à natalidade não estão dando resultado?
Em países onde se harmonizou a vida profissional das mulheres com as demandas do trabalho doméstico e familiar, os incentivos tiveram resposta. São lugares com taxas de natalidade aceitáveis. É o que se observa hoje na França e em países escandinavos. Mas nos países em que se desestimulou o trabalho feminino fora de casa encontram-se taxas de natalidade particularmente baixas. É o que se vê pelo Leste Europeu e em países da Europa latina, como Portugal e Espanha. Na Grécia, também. Nesses lugares, encontra-se a “greve do ventre”, ou seja, as mulheres evitam ter filhos para desenvolver alguma actividade remunerada.

Que outros medos compõem a expiação do imigrante?
Durante muito tempo a Europa se baseou num modelo de desenvolvimento que buscava, ao mesmo tempo, a eficácia de mercado e a regulação do Estado sobre a economia. Esse modelo variou de país para país, mas, essencialmente, dependia de algo chamado “coesão social”. O que se viu nos últimos anos? A coesão europeia foi tremendamente desestabilizada pela globalização no mundo do trabalho. Assistimos a um crescente empobrecimento das classes médias e o surgimento de vulnerabilidades nos sectores populares. Isso dá origem a uma ansiedade que acaba por traduzir-se em intolerância aos de fora. Um outro medo se articula em torno da ideia de nação. Até pela configuração da UE, as nações europeias sentem-se ameaçadas. Mas por quem? Pelo quê? Por um projecto europeu e por nacionalismos que estão pipocando. A desestabilização vem daí: uma nação, seja ela alemã, francesa ou espanhola, tem que dar lugar a uma cidadania europeia, ao mesmo tempo em que lida com regionalismos reactivados. Eis por que o imigrante transformou-se num ponto focal da política europeia.

Hoje milhares de brasileiros estão ao alcance das sanções da nova legislação europeia. Voltando aos anos 80, nossa década perdida, veremos que o fluxo migratório brasileiro deu um salto naquele período e no início dos anos 90. Só que no período subsequente, a economia brasileira ganhou estabilidade e hoje as perspectivas são boas para o País. Por que, então, as pessoas continuam saindo?
Há pelo menos três razões fundamentais para emigrar, sem querer simplificar a reposta. A primeira, e mais evidente, é a dificuldade económica no país de origem. Porém os que saem não são necessariamente os mais pobres, e sim os mais frustrados. A segunda razão é a perseguição política. Sobretudo na África subsaariana, muitos deixam o país de origem tocados por ditaduras. Desgraçadamente, os refugiados ainda constituem um contingente imenso. A terceira razão tem a ver com o fato de que o mundo do trabalho tornou-se altamente competitivo. Profissionais especializados, como arquitectos, designers, gente da área de finanças, defrontam-se com um mercado de oportunidades atractivo e móvel. Com os investimentos sucessivos em educação nos últimos anos e com esse mercado global aberto para especialistas, encontramos a explicação de por que as classes médias latino-americanas emigram. E há, por fim, uma quarta razão: a imigração continua sendo uma aventura pessoal.

O senhor diz que não são os mais pobres que emigram, mas os mais frustrados. Qual é a diferença?
Os mais frustrados é que saem. Aqueles que, diante de uma péssima distribuição de riquezas e da falta de oportunidades, se desencantam. A desigualdade é um aliciante muito forte. Agora, se me permite, quero ressaltar um outro fenómeno: durante muito tempo a emigração foi um projecto essencialmente masculino. Agora, e cada vez mais, são as mulheres que emigram, levando na bagagem um projecto pessoal. Elas já não saem de seus países para encontrar o cônjuge. Partem por conta própria. Há as solteiras, dispostas a uma nova vida. E há as mulheres mães que partem em busca de oportunidades de trabalho, para gerar remessas que mandam ao país de origem, ajudando a criar os filhos. Esse fenómeno merece nossa atenção.

Existe uma ideologia racista no continente europeu?
Se ligo o barómetro, vejo que essa ideologia pressiona apenas uma pequena parcela dos europeus. Gente de extrema direita. Você pode perguntar: existe um racismo popular difundido na Europa? Infelizmente, sim. O racismo popular é uma mescla de coisas. Tem o racismo biológico, do tipo “sou melhor indivíduo que o outro”; o racismo de carácter cultural, difundindo que o diferente é impossível de ser assimilado; e o racismo por competição económica, “não quero que o outro venha porque vai tirar meu lugar”.

E os preconceitos? na imprensa espanhola lê-se que as brasileiras desembarcam em Madrid para viver como prostitutas. Os imigrantes do Leste Europeu são identificados com a máfia. Os africanos, com gente violenta.
Preconceitos sempre existiram. E existirão sempre. São como uma regra universal da história humana, segundo a qual um grupo social se valoriza às custas de rebaixar o outro. Só que, hoje, além de se propagar com incrível rapidez, os preconceitos estão mais fortes. Observe o seguinte: nas periferias de muitas cidades europeias, onde existe uma coabitação real de imigrantes e europeus, estouram conflitos inter-étnicos e de competição económica muitas vezes violentos. Mas os estereótipos são menos fortes, porque existe coabitação. Um vê o outro. Já os estereótipos que se propagam pelos veículos de comunicação de massa, sem contacto com a realidade, tendem a gerar preconceitos mais nocivos e perigosos. Como combatê-los? A única forma é fazer com que as coisas funcionem, é melhorar a situação do emprego, da habitação, saúde, educação, integração cultural. Posso explicar a importância da coabitação com um exemplo meio estranho. Há homens que são misóginos, mas, a despeito de sua misoginia, casam-se com mulheres. Não fosse assim, a espécie humana já teria desaparecido. Mas isso prova que o preconceito não necessariamente evita a relação com o outro.
(excerto da entrevista do sociólogo peruano Danilo Martuccelli)

sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

SILÊNCIOS QUE GRITAM(VIII) – ACULTURAÇÃO


As ruelas da sobrevivência, deverão dar lugar a amplos espaços de solidariedade que assegurem a própria sobrevivência do homem

O exílio, cultural, identitário e físico, desenvolve-se em processos separadores: emoções, silêncios e máscaras, para além da violência que jorra do interior de um novo contexto sociocultural.
Os danos, pessoais e familiares, surgem como uma inevitabilidade e são visíveis, a olho nu, nas sociedades de acolhimento, independentemente das designadas estratégias de integração.
Transporta um estilo de vida, atitudes, conceitos e hábitos que são diferentes dos encontrados no país de acolhimento. Esta multidimensionalidade poderá gerar uma maior adaptação sociocultural sem prejuízo da preservação da identidade originária.
As circunstâncias históricas e os respectivos contextos socioculturais aceleram ou retardam o esforço de adaptação a um novo espaço geográfico. Um mosaico de diferentes culturas vai-se amalgamando e projectando na busca de uma nova identidade psicossocial.
Deste modo, a aculturação arrasta as tradições e a identidade cultural para além dos aspectos psicológicos inerentes. A integração no novo país não é um dado adquirido. Factores económicos e materiais condicionam e viciam a atmosfera sócio-cultural do migrante.
A análise destas condicionantes pode servir de fio condutor para compreender o complexo processo de construção cultural destes “trabalhadores sem papeis”.
Em tese, as fronteiras culturais poderão ser o reduto de práticas xenófobas, viveiro duma estagnação cultural irreconhecível por cidadãos sem fronteiras e pelo próprio direito internacional.
As ruelas da sobrevivência, deverão dar lugar a amplos espaços de solidariedade que assegurem a própria sobrevivência do homem. Urge derrubar os muros das ideologias excludentes que aprofundam o abismo entre as condições de vida dos países ricos e dos países pobres. Na ausência de práticas de tolerância e de justiça sociocultural, corre-se o risco de a paz fossilizar enquanto miragem num mundo à mercê dos donos da guerra.

terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

COMUNICAÇÃO SOCIAL DISCRIMINA IMIGRANTES

Um estudo divulgado nesta terça-feira conclui que a Comunicação Social portuguesa continua a fazer um tratamento discriminatório dos imigrantes e das minorias quando noticia acontecimentos que envolvem estas populações.
Realizado em parceria pela Entidade Reguladora da Comunicação Social (
ERC), pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) e pela Universidade de Coimbra, o estudo intitulado "Emigração, diversidade étnica, linguística, religiosa e cultural na imprensa e na televisão em 2008", incidiu sobre a imprensa diária e semanal, e sobre os três serviços de programas generalistas de televisão de sinal aberto, e refere-se a 2008.
No estudo afirma-se que “em determinados acontecimentos que envolvem imigrantes e as designadas minorias, as peças jornalistas tem como temática o "crime" e "observa-se que tanto os jornalistas, como os meios de comunicação social manifestam comportamentos que tendem a infringir alguns dispositivos presentes na Constituição Portuguesa, no Estatuto do Jornalista, na Lei de Imprensa e da lei da televisão”.
O trabalho destaca que o recurso a discursos opinativos e a juízos de valor é recorrente, infracções estas que podem estar enquadradas nos artigos 12º e 13º da Constituição Portuguesa, nomeadamente através "de intervenções discriminatórias dos jornalistas/pivôs ou repórteres, que enfatizam nas peças de imprensa e de televisão a ascendência, a raça e o território de origem como determinantes para a compreensão dos acontecimento.
As condições de trabalho dos imigrantes e as dificuldades que enfrentam no processo de inserção são temas poucas vezes abordados e em contrapartida o tema "crime" aparece como o mais associado aos imigrantes e às minorias.

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

UM ESPECTRO DE RACISMO ASSUSTA O PLANETA

Países europeus, como Alemanha, Inglaterra, Espanha e França, têm promulgado legislação xenófoba visando criminalizar a imigração, tornando-a ilegal. Esta postura não visa apenas as populações africanas, alvo do racismo. Ela é muito mais ampla e atinge muçulmanos, ciganos, latino-americanos e habitantes de muitos países da Europa Oriental.
A Europa talvez nunca tenha sido realmente tolerante, mas, quando os empregos considerados inferiores não eram aceites pela maioria dos europeus, um grande número de imigrantes foi recebido para preencher esses cargos indesejados.
Por conta de um possível medo da concorrência, uma parcela da população europeia voltou a eleger o estrangeiro como bode expiatório. Assim, criou-se um perigoso espaço para partidos políticos de extrema direita, de cunho nazi-fascista.
Escrito por Grupo de São Paulo,
aqui

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

FRANÇA: IMIGRANTES SEM PAPEIS FAZEM GREVE E OCUPAÇÕES



Em França, um movimento de luta dos imigrantes sem papéis, com greves e ocupações, que teve início em 12 de Outubro, está a crescer e a ampliar-se, exigindo a regularização de todas e todos. O movimento, apoiado por sindicatos, associações e partidos de esquerda, envolve já mais de 5.000 imigrantes.
No dia 1 de Outubro, organizações e centrais sindicais (entre as quais CGT, CFDT e Solidaires) e outras associações enviaram uma carta ao primeiro ministro francês solicitando uma circular ministerial, que permita a regularização dos trabalhadores e das trabalhadoras imigrantes que não têm papéis.
A 12 de Outubro estes trabalhadores e trabalhadoras iniciaram um movimento de greves e ocupações, no seu local de trabalho ou no sector de actividade, que não tem parado de crescer. A mobilização tem sido mais forte nos trabalhadores dos sectores da construção civil e obras públicas, limpeza, segurança e restauração.
Um site de solidariedade (
Solidarité avec les travailleurs-euses « sans-papiers » en grève) divulga notícias e tem uma petição, subscrita por centrais sindicais, associações e partidos de esquerda e que está a recolher assinaturas.
Nesta Terça feira 10 de Novembro, o presidente da Câmara de Paris, Bertrand Delanoë, escreveu ao primeiro ministro pedindo-lhe que "flexibilize as condições de regularização dos trabalhadores sem papéis", pois constata que o movimento "toma diariamente maior amplitude" e está preocupado que o movimento, por falta de negociação, venha a "perturbar a actividade económica da capital".
O movimento reivindica que a circular ministerial permita a regularização da(o)s trabalhadora(e)s, independentemente do seu "estatuto, situação, nacionalidade e sector de actividade". Pretendem ainda que a circular contenha "definição de critérios melhorados, simplificados e aplicados ao conjunto do território nacional", igualdade de tratamento e procedimento estandardizado.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

O DIREITO E TER DIREITOS

Um milhar pessoas participou, dia 17, numa manifestação em Madrid pedindo a revogação da nova Lei de Imigração, considerada um grave retrocesso para os direitos dos imigrantes. Os manifestantes, convocados por quase 70 associações de apoio aos imigrantes, percorreram as ruas da capital espanhola exibindo, entre outras, uma faixa com os dizeres “Paremos a reforma da Lei de Imigração. Temos direito a ter direitos”. O protesto decorreu ainda em mais nove cidades espanholas. A reforma da lei, segundo os organizadores, “consolida uma visão eminentemente policial da gestão das migrações, ligando perigosamente a crise à imigração”. Em Espanha, dos quase 46 milhões de habitantes 12% são imigrantes. Retirado daqui

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

ONU: RELATÓRIO DESMONTA MITOS SOBRE IMIGRAÇÃO


Algumas ideias feitas sobre a imigração no mundo são desmontadas pelo Relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas divulgado esta segunda-feira, que mostra que apenas um terço das migrações internacionais se dá de um país em desenvolvimento para um país desenvolvido: menos de 70 milhões de um total de 200 milhões de migrantes. A maioria desloca-se de um país em desenvolvimento para outro, ou de um país desenvolvido para outro. Além disso, o relatório mostra que a maioria das migrações são internas aos próprios países e que menos de 1% dos africanos migraram para a Europa.
O relatório traz assim uma nova luz aos debates sobre a imigração na Europa, em que aqueles que defendem o endurecimento das políticas de controlo de fronteiras e o levantamento de verdadeiros muros em torno de uma Europa-fortaleza sempre argumentam que o continente europeu não pode receber migrações maciças da África. Mas o relatório da ONU mostra que os povos dos países mais pobres são os que menos mobilidade têm - e é por isso que menos de um por cento dos africanos se mudaram para a Europa.
De facto, diz o relatório, "a História e evidências contemporâneas sugerem que o desenvolvimento e a migração caminham de mãos dadas: o índice médio de emigração de um país de baixo desenvolvimento humano é inferior a 4%, comparado com mais de 8% em países de altos níveis de desenvolvimento humano." Isto é, há mais emigrantes de países ricos, em percentagem, que dos pobres.
O relatório também mostra que a maior parte das pessoas desloca-se dentro do seu próprio país e não além-fronteiras. Estima-se que aproximadamente haja 740 milhões de migrantes internos e 200 milhões de migrantes internacionais - dos quais menos de 70 milhões saíram de um país pobre para um rico.
A maioria dos migrantes obtém melhoria nas suas vidas, na forma de melhores rendimentos, melhor acesso à saúde e educação, e melhores perspectivas de vida para os filhos. Por isso, uma vez ultrapassadas as barreiras iniciais e estabelecidos no seu destino, os imigrantes aderem mais facilmente que os locais a sindicatos ou grupos religiosos e outros, e a maioria sente-se feliz com a sua situação. Isto é, desde que lhes seja dada a possibilidade de se estabelecerem, os imigrantes integram-se com facilidade nos países de acolhimento.
Os que migram devido a insegurança ou guerra são cerca de 14 milhões e representam 7% dos migrantes no mundo. A maioria mantém-se próxima ao país que tiveram de abandonar, na esperança de retornar.Confira
aqui

sábado, 18 de Julho de 2009

PEDIDOS DE REGULARIZAÇÃO DE IMIGRANTES, DA ORDEM DOS 60%, FORAM RECUSADOS PELO SEF


Mais de 70 mil processos para regularização de imigrantes, ao abrigo do art. 88, entraram nos serviços do SEF desde o final de 2007. No entanto, apenas 42% concluíram o processo de legalização. Dos processos entrados este ano, quase três mil (63%) foram recusados, com notificações imediatas para o abandono do país.
De acordo com dados divulgados na imprensa, 63% dos pedidos recebidos este ano pelo SEF foram recusados, tendo havido 2.901 imigrantes a receber notificações para abandonar o país. Desde finais de 2007, foram 71.362 os pedidos de regularização que entraram no SEF ao abrigo do artigo 88, mas apenas 42% conseguiram concluir o processo de legalização.Em declarações à imprensa, dirigentes de associações de defesa dos imigrantes revelaram o seu descontentamento com esta situação. Paulo Mendes, coordenador da Plataforma de Associações de Imigrantes, afirma que "as notificações são o pão nosso de cada dia" e acusa o SEF de ser "um dos motores da ilegalidade, em vez de encaminhar as pessoas para a legalidade".Por seu lado, Gustavo Behr, presidente da Casa do Brasil, afirma que quando se faz um pedido de regularização através do artigo 88 é porque se "preenchem os requisitos e, como tal, deveriam ser todos regularizados".
Retirado do Net-esquerda

sexta-feira, 17 de Julho de 2009

SILÊNCIOS QUE GRITAM (VII) A MIGRAÇÃO E O JORNALISMO ACRÍTICO


Os média deveriam ser o alicerce da sociedade democrática que desafia a autoridade e oferece ao povo a oportunidade igual de aprender e participar. (Noam Chomsky)
No decurso da guerra fria, um jornalismo acrítico e de subserviência em relação a regimes liberais, eminentemente anti-comunistas, defensores e servidores do status quo e do grande capital, sempre se disponibilizaram para noticiar a problemática dos refugiados das ditaduras comunistas! Faziam-no duma forma parcial, arbitrária e subserviente
Hoje, apesar da “liberdade” finalmente conquistada, das regiões orientais da Alemanha, da Polónia, Roménia, Albânia, etc., o fluxo migratório não cessa de aumentar. Sobre esta realidade, os chamados jornais de referência remetem-se para um silêncio sepulcral! Com os muros a aprisionar palestinos na sua própria Pátria ou com a muralha americana a separar o México, a evocação do Muro de Berlim já não pode, obviamente, surtir o efeito de outrora.
Este império da mentira e da desinformação, continua na frente de combate pela manipulação da opinião pública à escala global e é igualmente responsável pela onda de xenofobia que ameaça os migrantes em geral e, em particular, os de origem árabe ou africana

NA ILHA DE MOÇAMBIQUE


HISTÓRIAS DA EMIGRAÇÃO

A problemática migração, e o que lhe está associado, é o objecto deste blogue. Tenho alguns textos por concluir e/ou por publicar.
Entretanto, não resisti, a este trabalho de José Saramago, retirado daqui:
Histórias da emigração
Que atire a primeira pedra quem nunca teve nódoas de emigração a manchar-lhe a árvore genealógica… Tal como na fábula do lobo mau que acusava o inocente cordeirinho de lhe turvar a água do regato onde ambos bebiam, se tu não emigraste, emigrou o teu pai, e se o teu pai não precisou de mudar de sítio foi porque o teu avô, antes dele, não teve outro remédio que ir, de vida às costas, à procura do pão que a sua terra lhe negava. Muitos portugueses morreram afogados no rio Bidassoa quando, noite escura, tentavam alcançar a nado a margem de lá, onde se dizia que o paraíso de França começava. Centenas de milhares de portugueses tiveram de submeter-se, na chamada culta e civilizada Europa de além-Pirinéus, a condições de trabalho infames e a salários indignos. Os que conseguiram suportar as violências de sempre e as novas privações, os sobreviventes, desorientados no meio de sociedades que os desprezavam e humilhavam, perdidos em línguas que não podiam entender, foram a pouco e pouco construindo, com renúncias e sacrifícios quase heróicos, moeda a moeda, centavo a centavo, o futuro dos seus descendentes. Alguns desses homens, algumas dessas mulheres, não perderam nem querem perder a memória do tempo em que tiveram de padecer todos os vexames do trabalho mal pago e todas as amarguras do isolamento social. Graças lhes sejam dadas por terem sido capazes de preservar o respeito que deviam ao seu passado. Outros muitos, a maioria, cortaram as pontes que os ligavam àquelas horas sombrias, envergonham-se de terem sido ignorantes, pobres, às vezes miseráveis, comportam-se, enfim, como se uma vida decente, para eles, só tivesse começado verdadeiramente no dia felicíssimo em que puderam comprar o seu primeiro automóvel. Esses são os que estarão sempre prontos a tratar com idêntica crueldade e idêntico desprezo os emigrantes que atravessam esse outro Bidassoa, mais largo e mais fundo, que é o Mediterrâneo, onde os afogados abundam e servem de pasto aos peixes, se a maré e o vento não preferiram empurrá-los para a praia, enquanto a guarda civil não aparece para levantar os cadáveres. Os sobreviventes dos novos naufrágios, os que puseram pé em terra e não foram expulsos, terão à sua espera o eterno calvário da exploração, da intolerância, do racismo, do ódio à pele, da suspeita, do rebaixamento moral. Aquele que antes havia sido explorado e perdeu a memória de o ter sido, explorará. Aquele que foi desprezado e finge tê-lo esquecido, refinará o seu próprio desprezar. Aquele a quem ontem rebaixaram, rebaixará hoje com mais rancor. E ei-los, todos juntos, a atirar pedras a quem chega à margem de cá do Bidassoa, como se nunca tivessem eles emigrado, ou os pais, ou os avós, como se nunca tivessem sofrido de fome e de desespero, de angústia e de medo. Em verdade, em verdade vos digo, há certas maneiras de ser feliz que são simplesmente odiosas. (José Saramago)

quarta-feira, 1 de Julho de 2009

PROTESTO MIGRANTE


Em estaleiros de vidas adiadas
homens e mulheres
enclausurados em guetos
de sociedades sem ética
acossados para a marginalidade
reciclados nas fronteiras
da indiferença
a pretexto de serem estrangeiros
estigmatizados pela origem
jazem na miséria e na perseguição
docilizam a revolta
reproduzem a exclusão

retirado de PoesiadeAgry

quinta-feira, 18 de Junho de 2009

SILÊNCIOS QUE GRITAM (VI) - DIREITOS DOS IMIGRANTES



O mundo que eu gostaria de contemplar seria um mundo liberto da brutalidade dos grupos hostis, e capaz de compreender que a felicidade de todos resultará mais da cooperação do que dos conflitos (Bertrand Russell)

Num mundo em decomposição, onde os Estados se demitem,a solidariedade light e a indiferença são a imagem de marca, a amplificação dos sentimentos xenófobos não pode cessar de crescer.
Assobiar para o lado como se os outros fossem sombras inúteis não passa de uma mera tentativa jesuítica de abordar a problemática da migração
A realidade, quando confrontada com os discursos caramelizados produzidos pela ideologia excludente, deixa a nu o farisaísmo dominante.
Sociedades preconceituosas até às virilhas,são um embuste que em nada favorecem a inclusão dos imigrantes, pelo contrário: contribuem para a crescente desumanização das relações de trabalho e para aprofundar as desigualdades sociais.
Aos imigrantes, ou trabalhadores invisíveis, não lhe são reconhecidos direitos apesar de serem uma realidade que não se confina à estratégia delirante das democracias entorpecidas
Os traços fortes da inépcia, em comprender o outro, revelam-se em práticas sistemáticas em estigmatizar o migrante, com qualificativos ácidos e rasteiros.
Decretar a invisibilidade da migração equivale à perpetuação discriminadora do outro e à cumplicidade com os violadores de direitos humanos.
É inegociável o respeito pela dignidade humana e o reconhecimento da igualdade de direitos entre todos os cidadãos. É preciso, é urgente, é inadiável derrubar os muros que bloqueiam a construção de sociedades mais justas, mais humanas e mais inclusivas.
É preciso pôr termo aos efeitos que reproduzem a guetização e exclusão e todo o cortejo de misérias que consigo arrasta e reunir um conjunto de forças e cidadãos que repudiem o projecto de sociedade que está a ser imposto à Humanidade.

terça-feira, 2 de Junho de 2009

SILÊNCIOS QUE GRITAM (V) - LEIS DE MIGRAÇÃO

Seja na costa italiana ou nas Ilhas Canárias, centenas de pessoas chegam diariamente ao território europeu.
Enquanto as autoridades discutem se são 'refugiados' ou 'imigrantes', cada um conta apenas com a própria sorte (Dw World. De)
O fenómeno migratório induz a um dever urgente de recuperar a utopia da solidariedade, entre os povos,a justiça social e os direitos humanos.
O edifício jurídico que acolhe a defesa dos imigrantes surge como resultado de lutas transversais a todos as geografias e perfumado pela aliança de muitas centenas de milhares de trabalhadores
É preciso, é urgente, conquistar soluções globais e inclusivas, em oposição a atitudes rançosas simuladas com uma roupagem obscena.As forças mais imobilistas, apostadas numa direcção claramente regressiva e securitária, convertem os imigrantes em bodes expiatórios , transferindo para eles o ónus de politicas desastrosas e responsabilizando-os por todos os males sociais nomeadamente o desemprego e a criminalidade.
Esta diabolização dos imigrantes é o pretexto para as escolhas duma arquitectura politica desprovida de humanismo e altamente discriminatória que culminou com a abjecta directiva da vergonha aprovada pela EU. a qual alarga o prazo de detenção dos imigrantes sem-papéis e prevê a massificação das expulsões.
Sobreviver, atravessando as fronteiras da intolerância dum continente que não aprendeu a amar. Resistir, percorrendo caminhos sinuosos , traiçoeiros e armadilhados de ambiguidades semeadas por entidades sem ética,são alguns dos escolhos que se cruzam no quotidiano dum imigrante.
O velho continente precisa de imigrantes como pão para a boca: compensar o envelhecimento da sua população e de preencher os empregos rejeitados por parte da população local, nomeadamente os trabalhos de maior desgaste físico e em sectores considerados menos nobres. Por outro lado, a crença de que os migrantes são economicamente necessários mas socialmente indesejáveis repousa no mesmo tipo de preconceito que criminaliza e detem trabalhadores apenas porque são imigrantes
A história tem uma dívida de mais de 500 anos com os povos migrantes. Nenhum ser humano é minoría, nenhum ser humano é indocumentado e nenhum ser humano é ilegal.

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

ZAMBÉZIA

FOTO DE JOAKIM

SILÊNCIOS QUE GRITAM(IV) - O DESTINO


Em certos momentos, os homens são donos dos seus próprios destinos(William Shakespeare)

Partir para outras miragens, perseguir outra estabilidade e imaginar um futuro diferente é uma atitude decalcada na história recente de outros povos.
Paradoxalmente,sente-se despojado da euforia da liberdade colectiva conquistada e das fronteiras identitárias implícitas.
Para trás, ficou a nostalgia, as paisagens e os rostos gravados no quotidiano da sua existência, e a frágil memória de uma pátria recém-liberta e um terrritório afectivo e cultural difuso.
O conflito que tantas vidas ceifou, eterniza-se no sofrimento de centenas de milhares de compatriotas num cenário dantesco que no decurso de uma década se tentou ocultar
Esta guerra fratricida foi o pretexto para mais uma hemorragia no corpo de um país enfermo e acossado. Lá longe, os holofotes da paz e da abundância, seduziam os instintos para territórios culturais pouco conhecidos!
Este simulacro de paz, rodeado de muros de exclusão, ocultam uma hostilidade permanente e uma coexistência mal conseguida: velhos preconceitos transportados para uma nova geografia!
O novo palco societário exigirá do imigrante um novo reposicionamento e a clara percepção das relações de poder e de identidade amalgamadas no território de destino
Uma abertura ingénua ao outro pode traduzir a desagregação do eu, provocando uma crise identitária. A recuperação dum certo conceito de assimilado, enquanto aliado da ideologia colonial, pode resultar num ser cultural híbrido.
A resistência cultural, ainda que ancorada na construção duma nova identidade sem ruptura, é a linha divisória, a fronteira que sobrevive ao domínio do outro.
Urge derrubrar as muralhas da intolerância que se alojou nas entranhas, duma certa memória reinventada, e acumular energias para se resguardar dos problemas que aí vêm e reivindicar uma coexistência mais ou menos pacífica.

segunda-feira, 18 de Maio de 2009

SILÊNCIOS QUE GRITAM (III) - RUMO AO DESCONHECIDO


Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. (Milan Kundera)

Rumar ao desconhecido, abandonar lugares e afectos profundos, arquivar o imaginário na penumbra das boas recordações, é um verdadeiro salto no escuro, sem rede e sem retorno.
Acusar, quem o faz, de bater em debandada, não é seguramente o melhor caminho.
É ficar nos bicos dos pés à espreita do pretexto de cavalgar à custa de dramas de terceiros. É o clássico arremesso de pedras, é o diabolizar ausências, obedecendo à lógica incapacitadora de dissecar as circunstâncias que rodearam e determinaram a partida. Cada homem é uma história e esta não pode ser, manhosamente avaliada. A colagem de rótulos processa-se anarquicamente. É o arrivismo no posto de comando. Perde-se de vista a construção de sonhos e expectativas. Privilegia-se o assalto à visibilidade e aos centros decisores. As florestas da hipocrisia atiçam a intolerância e a compreensão do outro.
Impreparado para digerir a nova realidade, cercado pelo fundamentalismos, relegado para o submundo da escassez e da fome, acossado no interior do seu próprio quintal, a decisão de partir constitui a última oportunidade para se libertar da espiral de miséria e reencontrar a esperança, ao virar da esquina.
Confrontado com o enigma, inicia a fuga, para a frente, na expectativa de fazer uma escolha entre duas espécies de desconforto, optando por uma terapia menos dolorosa
Rasgar muros e medos, forrados de cinismo escavados na banalização da indiferença, é o próximo desafio a vencer. Atropelar a memória, driblar o preconceito e a opacidade do outro, são jogadas de laboratório a ensaiar
Homens e mulheres, enclausurados em guetos de sociedades eticamente anestesiadas, reciclados nas fronteiras da indiferença, são submetidos à tortura dum clima social instável e agreste.
Aqui, a coluna vertebral regressa, por vezes, às origens identitárias e aceita o desafio.
A impressão digital dos afectos e das cumplicidades deixa um travo de nostalgia, e recorda que o combate mal começou

quarta-feira, 13 de Maio de 2009

SILÊNCIOS QUE GRITAM (II) - AS ORIGENS

As árvores têm de se resignar, precisam das suas raízes; os homens não. Não gosto da palavra “raízes” e da imagem ainda menos. As raízes enfiam-se na terra, contorcem-se na lama, crescem nas trevas; mantêm a árvore cativa desde o seu nascimento e alimentam-na graças a uma chantagem: “Se te libertas, morres!”
(Amin Maalouf)

O corte do cordão umbilical foi, em muitos casos, uma intervenção adiada e/ou assistida. Gerações de urbanizados experimentaram o desconforto da coexistência com a mudança de paradigma! Os mais domesticados, renunciavam às origens e afundavam nos seus delírios, refugiando-se em velhas crenças difundidas pelo engenho triturador de sonhos.
No terreno, esboçava-se o projecto de uma vida nova! Enclausurados em guetos de sociedades divididas, o fogo cruzado das ideologias dominantes provocava danos e adiava as decisões. Interesses irreconciliáveis disputavam cada palmo de terra.
Esta ideologia libertadora, ameaça a capitalização de privilégios. Em nome da caça às bruxas, forjam-se pretextos para prolongar as hostilidades! O velho inimigo, sorri
A amnésia histórica instala-se. A diabolização da luta emancipadora dociliza e domestica os mais vulneráveis. Rasgam-se as entranhas do sonho. O pesadelo arrasta-se e secundariza-se a dignidade.
A sobrevivência da utopia está ameaçada, dificilmente resistirá! A morte foi, entretanto, anunciada.
Homens e mulheres, crianças e velhos disputam, no quotidiano, um punhado de alimento. Cobras e humanos, pernoitam em árvores.
Num cenário de destruição, de insegurança, de armadilhas e de indignidades, a degenerescência galopa e os ódios substituem-se à solidariedade e à partilha tão peculiar das gentes da Pérola do Índico.
Nos alicerces dum projecto de contornos bem definidos, ainda que questionado por alguns (muitos?) a nova arquitectura politica terá de dispor de imaginação, capacidade e empenho para conquistar as principais vítimas deste estúpido pesadelo, com rastos de violência aviltantes.
Neste período, muitos moçambicanos, muitos quadros, abandonaram o seu País. Órfãos, coagidos à aventura, engrossaram o caudal dos trabalhadores à mercê da exploração desenfreada dos mesmos, de sempre. Alguns, nem por isso!
Uns e outros ficaram mais pobres: o país e os cidadãos.

quinta-feira, 7 de Maio de 2009

O FUTURO


É preciso dar notícia
informar, mobilizar
que a resistência
à mudança
aprisiona a liberdade
convoca e legitima
a arbitrariedade

É preciso impedir
o regresso ao passado
o ressurgir dos medos
a violência gratuita
o sofrimento, a infâmia
o excesso de autoridade
o reino da impunidade

é preciso dar noticia
mobilizar, resistir
reproduzir a esperança
viabilizar a utopia
recuperar a dignidade
isolar e punir
os carrascos da liberdade

não podemos capitular
temos que acreditar e lutar
jamais mastigaremos silêncios
cumplicidades e medos
nada nos pode acorrentar
saberemos sorrir
lutar e avançar

é urgente extirpar
degenerescências
metástases e bloqueios
falsos profetas
plagiadores de sonhos
usurpadores
sem soçobrar

é preciso, pois
dar noticia, mobilizar
projectar e construir
o futuro sem armadilhas
nem ambiguidade
sem perder de vista
a humanidade

é preciso dar noticia
informar, divulgar
as ausências, os silêncios
o que sofremos
o pão suado
dizer não
ao regresso ao passado

IMAGEM E TEXTO RETIRADOS DE POESIA DE AGRY

quarta-feira, 6 de Maio de 2009

SORRISOS DE ESPERANÇA

SILÊNCIOS QUE GRITAM (I) - SONHOS NO EXÍLIO


O exílio é um daqueles silêncios que gritam, apesar das ambiguidades, dos pensamentos ausentes, das lágrimas vestidas de raiva, e da impotência acomodada. As ausências e os silêncios preenchem o quotidiano do exilado/emigrante em territórios polvilhados de nostalgia e de recusa e ostracismo explícitos.
Politicamente refractários, perseguidos ou indiferentes, percorrem as ruas da sobrevivência, em nome duma amnésia histórica adquirida. As tragédias pessoais dilatam-se ou contraem-se como vasos dum corpo social imunodeficiente.
A reprodução e o regresso ao passado desperta-os desta letargia mal diagnosticada.
A crise identitária, de uns, é compensada pelo pragmatismo doutros.
Pedreiros, estudantes, mulheres a dias, funcionários públicos, freiras e prostitutas, políticos de todos os quadrantes, quadros superiores, músicos, desportistas representam esta multidão difusa, heterogénea e desconfortável numa temperatura social mais fria, mais distante, menos solidária, diferente!
Outro continente, outras gentes, e uma coexistência difícil. A geografia e a unidimensionalidade cultural repercute-se em todos os domínios da existência separadora, inevitavelmente!
Do local de trabalho ao bairro, passando pelos transportes públicos, os pesadelos do passado, ressurgem como num filme a preto e branco: “ Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor policia”(Mia Couto)
Milhares que vivem em situação de vulnerabilidade e incertezas, são invadidos pelo desalento, pela frustração e pelo desencanto e pelos medos que capturam a esperança! Como eram enormes as expectativas geradas!
Revisitar as origens, familiares e amigos, cheiros, sabores e tantos lugares e afectos, percorrem, e preenchem, os sonhos do exilado:
Maputo e Mafalala;Quelimane e Namacurra; Beira e Manga; caril de amendoim, e mucuane, sura , caju e aguardente; mangas e papaias; Pemba e Paquitequete , Inhambane , Chidinguele; caranguejo e camarão; Ibo e café, galinha à zambeziana, xigubo, msaho mapiko, Malangatana, Craveirinha, Mia Couto Fanny Pfumo, Paulina Chiziane,mafurra, praias, pescadores mineiros e o coração grande e generoso dos compatriotas, moçambicanos.